segunda-feira, 21 de agosto de 2017
Arnaldo Carvalho fala sobre o tema "Eu perdoo, tu perdoas, ele perdoa ..."
Em 1º de janeiro de 2016, ficou reconhecido o Novo Acordo Ortográfico e com isso o único formato da Língua Portuguesa reconhecido no Brasil é o do referido pacto. O ajuste linguístico vigora desde 2009, quando o trema de tranquilo, o acento de ideia e o hífen de dia a dia saíram do uso. Seu objetivo é ajustar a escrita da lusofonia das nações de: Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.
O contemporâneo Acordo Ortográfico suprimiu o acento circunflexo de eu perdôo, sendo agora escrito: eu perdoo. Talvez seja mais fácil o entendimento gramatical do vocábulo que a vivência cotidiana dessa prática tão requerida nos relacionamentos humanos, cheios de embates e contradições.
O Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa coloca a palavra perdão com as seguintes acepções: (1) Remissão de pena; desculpa; indulto. (2) Renúncia de pessoa ou instituição à adesão às consequências punitivas que seriam justificáveis em face de uma ação que, em níveis diversos, transgride preceitos jurídicos, religiosos, morais ou afetivos vigentes.
O verbo perdoar, de acordo com o mesmo dicionário, pode ser determinado como: (1) Desculpar, absolver, remitir (pena, culpa, dívida, etc.). (2) Poupar; evitar. (3) Conformar-se com; aceitar (4) Conceder perdão a; desculpar. (5) Desculpar, absolver, remitir. (6) Conceder perdão, desculpa; remitir as faltas. (7) Conceder perdão ou desculpa e (8) Poupar-se. Etimologicamente, o verbo perdoar tem origem no verbo perdonare (do latim vulgar).
Após as considerações filológicas, voltemos o pensamento para a ação e o sentimento latente ou manifesto envolto ao perdão.
Postula-se que o perdão é uma ação que excede o nexo da reparação e consente novos construtos psíquicos, tanto para pessoas culpadas como para, sujeitos oprimidos.
Perdoar é demitir-se de continuar numa determinada maneira sem que isso constitua esquecimento; é deixar de cobrar uma dívida apesar dela não ter sido quitada. Perdoar não é homólogo a se harmonizar, é uma estratégia para continuar a convivência despedindo-se daquilo que produz dor intensa. Trocar situações ruins por outra menos traumática que por sua vez trazem algum sentido a existência do ser ofendido.
É um modo interno de operacionalizar a escolha de não se ressentir. Abdicar do direito dos ajuizamentos negativos e comportamentos contraproducentes para com o outro sujeito que ultrajou injustamente. Paralelamente, alimentar-se de sentimentos imerecidos de compaixão, misericórdia e, possivelmente, afeição para com o ofensor.
A afronta é considerada censurável e imposta por outra pessoa, o perdão é uma opção ou arranjo por parte da vítima, e não um constrangimento, pois cada um tem o direito (nem que for internamente) de fazer sua escolha, uma vez que a pessoa ofendida às vezes pode preferir o ressentimento.
A nova atitude da pessoa ofendida, quando se apega ao perdão, abarca modificações em três dimensões: afeto (esvaziamento do ressentimento por meio da compaixão), cognição (suplantação da maledicência por meio do respeito e bondade) e conduta (superação da disposição à vingança por meio do discernimento da apropriada pretensão em reconstruir uma nova relação com o ofensor).
Perdoar é mais do que deixar pra lá o que aconteceu, ou deixar de ter raiva, ser indiferente em relação ao outro, ou ainda, fazê-lo tão-somente por se sentir bem. Mas, há quem dê continuação à vida com frieza e insensibilidade em relação ao ofensor.
Apesar de lidar com a fúria ser uma das empreitadas abarcadas na arte de perdoar, ter como fundamental objetivo a supressão da raiva e do ressentimento pode desvirtuar o processo de perdão, já que é possível improvisar a cessão da raiva ou o ressentimento também por meio da retaliação.
Devido sua propriedade interpessoal, o perdão tem como escopo final a acomodação em ver o ofensor com certa misericórdia e, a partir daí, conseguir dar a ele o perdão. Incide, essencialmente, em que aquele que perdoa tenha emoções e pensamentos positivos em relação ao ofensor. Nessa definição, as pessoas podem começar a ação do perdão por ansiarem sentir-se melhor, mas, quando resolvem dar o perdão ao ofensor, a pessoa que perdoa deixa de ficar concentrada em si própria e passa a concentrar-se no outro, acertando o começo do processo de cura do desgosto.
Um bom exemplo da prática institucional do ato de perdoar pode ser percebido pelo movimento do Conselho Nacional de Justiça com a implementação da Justiça Restaurativa que é distinguida como um método de dissolução de conflitos que prima pela inventividade e sensibilidade na escuta das vítimas e dos ofensores, colecionando resultados positivos a prática tem iniciativas cada vez mais diversificadas e já coleciona resultados positivos.
Consequentemente, mesmo sabendo que é algo muito difícil de ser feito o ato de perdoar, vale a pena refletir sobre isso e dentro da possibilidade que cada um tem em seu repertório de habilidades sociais, colocar em prática a conjugação do verbo perdoar em todos os tempos e pessoas.
AGUINALDO ADELINO CARVALHO
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